Muito já se
escreveu sobre o espaço doméstico, sua história e importância na vida do
cidadão, sua transformação ao longo do tempo. Desde o primeiro abrigo nas cavernas às tendas; das palafitas às casas flutuantes; das casas de
terra e palha às moradias atuais; das celas monásticas às mansões e edifícios; das favelas e loteamentos irregulares aos conjuntos e condomínios fechados. Talvez, a moradia seja o produto mais desejado no mundo
inteiro. Sim, porque morar é preciso, é verdade. Comprar, não necessariamente. Moradia, mais que
produto, é direito social constitucional e deve ser visto como serviço.
O sonho da casa própria, talvez, seja valorizado demais por aqui. Talvez por não existir a garantia de um emprego com salário suficiente para proporcionar uma vida digna em imóvel alugado. Talvez pela falta de políticas públicas habitacionais e de controle do aluguel. Vivi em São
Paulo, metade da minha vida. Lá conheci casais que moravam, há anos, nos mesmos
imóveis alugados. Todos europeus; os moradores, não os imóveis. O mesmo acontecia (acontece?) na Itália. Lembro-me de que, em
Roma, nos início dos anos de 1980, eu me espantava ao ver famílias
morando anos a fio em imóveis alugados. Um aluguel justo, possível e que cabia no
orçamento familiar, tranquilamente. A inflação na época era quase nula, os imóveis para compra
eram sempre caríssimos e não existia, como meta de vida, o sonho da casa própria. A
família permanecia anos ali, vivendo com dignidade - zona central, serviços, lazer, cultura, sem excesso de espaço ou de área construída. Quando
foi que isso mudou?
Mas duvido
que, quando alguém sonha com uma casa (cedida, alugada ou comprada),
sonhe apenas com um teto. Habitar envolve muito mais
que isso: inclui espaço adequado e digno, boa relação com os vizinhos e com o entorno (dotado de equipamentos, áreas verdes e serviços públicos). Inclui, sobretudo, desenvolver uma sensação de pertencimento.
Por isso, é
tão importante discutir nosso déficit habitacional e novas formas de acesso à moradia (que não apenas a compra da casa
própria) como políticas de aluguel (controle, incentivo a aluguel social e auxílio aluguel) e integração entre habitação e patrimônio histórico, por exemplo. Além disso,
é preciso divulgar os benefícios de cidades mais adensadas (nem por isso menos
agradáveis), porque o fato é que todos querem e merecem morar com dignidade, com o trabalho e outros serviços nas imediações. Mas,
como já disse na série de três posts sobre Moradia para Idosos,
estamos acostumados com essa situação. Esse é o problema, o costume. Pois que nos desacostumemos, por uma questão de empatia e dignidade. Empatia, colocar-se no lugar do outro, parece meio fora de moda, eu sei, mas é o que nos
resta para sobrevivermos como sociedade humana. Porque o olhar
acostumado (ou distraído, como dizia Walter Benjamin) só perpetua a atitude preconceituosa de segregação, exclusão e toda violência daí advinda.
As recentes e tristes notícias envolvendo, sobretudo, mulheres e crianças nos
lembram disso a todo momento.
Muitas de nossas casas, por exemplo, ainda guardam características que lembram os tempos da escravidão. Mudaram os arranjos
espaciais, as dimensões, a decoração, os materiais, mas o modelo de
segregação ainda se repete, quase mecanicamente. Em geral, quase todas dispõem de um espaço destinado ao trabalhador doméstico. Alguns são verdadeiros
cubículos: sem espaço, sem ventilação, sem iluminação suficiente. Não conseguem
dar o descanso devido a esse trabalhador e, nesse caso, não podem ser chamados
de quarto que, por definição, é um local local privativo de refazimento e
repouso.
O documentário Aqui não entra luz (2021), da cineasta Karoline Maia, mostra a relação entre o tal quartinho
de empregada e a senzala. Para produzi-lo, a cineasta, ela própria filha de empregada, entrevistou domésticas dos estados que mais receberam escravizados: São Paulo,
Maranhão, Bahia, Minas Gerais e Rio. É realidade crua na veia, escancarando preconceito e o racismo.
Então, que
tal repensar nossos espaços de moradia, os já prontos e aqueles a serem construídos, ou seja, em projeto? Afinal, o lar deveria ser responsabilidade de todos os
que ali moram. É preciso assumir a organização e a manutenção da própria casa, e ensinar a cada membro da família a organizar, cuidar, limpar, lavar, passar, cozinhar. Gostamos tanto de viajar, elogiamos tanto cidades do exterior, seus espaços e práticas, e, no entanto, não abrimos mão de
nossos costumes, muitas vezes carregados de preconceito... Lá, como
regra geral, o trabalho de cuidar da casa é compartilhado. Desde cedo, cada
morador tem uma função para tudo funcionar a contento – cozinhar, arrumar a cozinha, tirar o
lixo, pôr a mesa, arrumar as camas, tirar o pó, cuidar do jardim.... Não importa o
quê. O importante é colaborar e dividir as tarefas da casa. Que tal começar? Sem machismos,
sem achismos, sem medo. E se não conseguirmos fazer todo o serviço, vale pedir
ajuda e contratar alguém, é claro. Mas ao menos todos colaboram, as tarefas não recaem sobre
uma só pessoa só da família (em geral, a mãe) e, principalmente, cada um aprende a dimensionar e
valorizar aquele indivíduo que nos ajuda a manter a casa funcionando.
Referências
https://imobireport.com.br/racismo-estrutural-na-arquitetura-das-cidades-ao-quartinho-da-empregada/
https://revistaforum.com.br/blogs/urbanidades/o-desenho-do-racismo/
https://revistaforum.com.br/noticias/espacos-de-exclusao/
https://www.youtube.com/watch?v=frZQRB5SYKY
https://istoe.com.br/aqui-nao-entra-luz-a-senzala-moderna/
https://www.itaucultural.org.br/rumos-2017-2018-aqui-nao-entra-luz