quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ecos Humanos | Reconhecimento em vida

Adélia Portes. Foto: Anita Di Marco, 2018
 Rio Verde. Adélia Portes, óleo sobre tela. 1995.
É com grande alegria que comunico, aos amigos, que o nome da artista plástica Adélia Portes (Di Marco) virou verbete da Enciclopédia Itaú Cultural. Depois da análise do currículo, das obras e dos documentos referentes ao trabalho da artista, seu nome foi incluído em uma das mais conceituadas enciclopédias virtuais de hoje. Para nós, filhos, familiares e amigos, além de imenso orgulho, é uma satisfação única ver esse reconhecimento em vida. Ao escrever este texto, porém, não quis fazer algo apenas laudatório e busquei palavras que pudessem definir a Adélia que conheço há décadas, não só como artista plástica, mas como mãe, esposa, avó, bisavó, amiga e mulher. 

Disponibilidade é uma delas. Para quem precisar, a hora que precisar e do que precisar. Adélia está sempre pronta a ajudar, sugerir ou apenas ouvir. 

Generosidade, irmã gêmea da disponibilidade. No olhar, no falar, no ouvir, nas atitudes e no perdão aos que a magoam.

Hibiscos. Adélia Portes. Foto: Anita Di Marco
Alegria é sua outra marca registrada. No dia a dia, no esforço, no trabalho, no lazer, no compartilhar e, admiravelmente, até na dor. 

Presença ativa. Incansável, ela não permite que o termo "cansaço" faça parte de seu vocabulário; e deveria, ao menos ocasionalmente. Mas não! Às vezes, quem a conhece percebe a fadiga no olhar e nos gestos. Porém, ela nunca demonstra, está sempre presente e jamais deixa de participar de alguma atividade por cansaço, algo que, definitivamente, também é ruim, já que, por vezes, ela não respeita os próprios limites. Mas, pergunto: isso é só dela ou de todos nós? 

Doçura pode fechar esta breve descrição. Mesmo ao chamar a atenção de alguém (filho, neto, amigo), quando desabafa ou dá bronca, ela jamais perde a doçura, a gentileza na fala e no olhar. A lista é grande, mas paramos por aqui.

Natureza morta com melões. Foto: Anita Di Marco.
Quando éramos crianças, como jovem mãe que era, brincava, jogava, ensinava, ria e se divertia com os filhos, sobrinhos e amiguinhos. Naquele tempo, não tínhamos carro e, diariamente, ela ia toda feliz levar e buscar as crianças na escola, a pé ou de ônibus. Naquela época, naquele reino tão, tão distante, pegávamos o ônibus elétrico nº 43 da Companhia Municipal de Transporte Coletivo (CMTC). Tudo era motivo para se divertir: ônibus cheio ou vazio, espera longa ou curta, material escolar pesado ou leve... Tudo era uma festa! E tem mais, depois de nos deixar na escola, ela se virava do avesso para conseguir trabalhar, fazer trabalhos voluntários e cursos profissionalizantes: enfermagem do lar, bolos de festa, bijuterias, colares, bordados finos...  

Itália. Óleo sobre Tela. Foto: Anita Di Marco
Depois, com os filhos já mais independentes, percebeu que poderia seguir seus sonhos, estudar e aprender sempre e cada vez - estudar, tocar violão, tirar carteira de motorista, cantar em corais e pintar. Ah! Como ela se realizava ao cantar e ao pintar... Pintava com tinta acrílica ou a óleo, desenhava com lápis preto ou pastel, fazia esculturas em papel machê, entalhava madeira para criar belas cenas... Como poemas pintados, suas obras expressavam emoções, sentimentos, o amor à família, à natureza e ao patrimônio histórico. Logo vieram as participações em praças, feiras, salões e, com isso, medalhas e menções.
Que orgulho e felicidade ver algum reconhecimento pela sua arte. Não financeiro, claro, porque arte não paga as contas no nosso país, mas dá prazer e realização, por algum tempo. Maior alegria ainda tivemos quando o nome dela virou verbete de enciclopédia cultural, pelo fato de tal reconhecimento ter sido feito em vida, como registro perene de uma linda história...

Uma palavra agora a todos que são filhos e filhas (em última instância, todos nós): respeitem, reconheçam, incentivem e valorizem os talentos de seus pais, porque, tenham certeza, eles abriram mão de muita coisa por vocês. Além disso, mais do que tudo,  agradeçam a eles por lhes darem o maior presente de todos: a própria vida! Namastê, do fundo do coração, Adélia Portes Di Marco... 

Namastê, mãe querida!

Referências:
https://enciclopedia.itaucultural.org.br/

https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa22156/adelia-portes

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Ecos Imateriais | Caminhar meditando

Estar presente, inteiro. Foto: Anita Di Marco
Hoje, a maioria das pessoas vive em ritmo acelerado, correndo para lá e para cá, sempre pensando na próxima tarefa a ser feita, tentando realizar os desejos impostos por uma sociedade materialista e consumista. Dessa forma, a maioria se sente muito mais cansado do que deveria, mais ansioso, disperso e infeliz. Isso ocorre porque nos desconectamos de nosso centro, de nosso Dharma, de quem realmente somos, de nossa essência.
Como prática efetiva de meditação, como antídoto eficaz contra essa agitação interna e fragmentação, o yoga age levando-nos a um maior entendimento de nós mesmos. Leva-nos de volta à nossa  essência, à retomada do nosso equilíbrio. Conecta o indivíduo com a própria alma independentemente da religião praticada e, através de uma prática consciente, leva-o a perceber suas fragilidades, se fortalecer e se modificar.

Observar, perceber. Foto: Anita Di Marco
Um dos inumeráveis benefícios e  conceitos transformadores que o yoga nos ensina é a capacidade de meditar na ação, aprender a viver o momento. Desenvolve em nós a capacidade de acompanhar nossa ação diária, de direcionar o foco para cada momento da vida, sempre fazendo o nosso melhor; de viver o presente; não o passado, nem o futuro; de concentrar-se na jornada e não no destino; de viver o hoje e o agora, apreciando o momento, sempre único e de valor inestimável. Sim, é um lugar comum, mas verdadeiro: o ontem não existe mais, o amanhã não chegou e o presente é tudo o que temos.    

 Ouvir, ver, sentir. Estar presente. Foto: Anita Di Marco
Para desenvolver esse estado de presença, o praticante precisa focar naquilo que está fazendo, pensando ou dizendo. Ao perceber que se distraiu, com calma e sempre que necessário, é só voltar a atenção para o que está fazendo. Começar a perceber que está disperso já é um bom sinal. Dessa forma, o praticante começa a romper o ciclo de palavras e ações automáticas e superficiais. Quando não está presente, o indivíduo olha e não vê; fala e ouve, mas não escuta; faz, mas não percebe; come, mas não saboreia. Estando presente, pode começar a ficar consciente do que antes era ação mecânica. Tudo muda: as cores ficam mais nítidas, os sons mais definidos, as palavras mais claras, as ações mais cristalinas. Há menos equívocos, menos arrependimentos, menos erros.

Meditação caminhando
Com a prática da concentração, é possível meditar ao realizar ações corriqueiras como lavar, passar roupa, comer, cozinhar, tomar banho ou caminhar. Pode parecer bobagem dar importância a uma coisa tão trivial, mas é justamente a partir das atividades mais simples que se aprende a meditar na ação, a estar presente, consciente do corpo, da respiração, dos pensamentos, sentimentos e atos. Pode-se até escolher a forma de encarar cada tarefa: monotonia, crítica ou gratidão. Qualquer atividade fica mais leve (ou não) a depender da nossa forma de encará-la. 

Meditar caminhando ou caminhar meditando nos dá a oportunidade de diminuir o ritmo, de conectar corpo, mente e respiração. 
O satsanga de encerramento do primeiro semestre de 2019, realizado no dia 10 de julho pelo Espaço DHARMA de Yoga, em Varginha, foi um convite e uma oportunidade para o praticante parar, refletir e praticar o estar presente todo o tempo para reconectar-se com sua essência e encontrar o caminho do meio, o equilíbrio entre o 'ser' e o 'fazer'.  Namastê! 
Mandalas, símbolos de perfeição e equilíbrio. Foto: Anita Di Marco 
Referências:
Meditação Andando. Thich Nhat Hanh, Petrópolis-RJ:Vozes, 2011  

terça-feira, 2 de julho de 2019

Ecos Culturais | Restaurando A Última Ceia de Da Vinci


A Última Ceia. Leonardo da Vinci, Milão. Imagem: Divulgação
Ainda a respeito do grande artista renascentista homenageado na Itália, durante o ano de 2019 (Ler o post 2019. Ano de Leonardo da Vinci), é bom lembrar que Milão abriga grande parte das obras de Leonardo da Vinci. Depois da Mona Lisa, no acervo do Museu do Louvre, em Paris, sua obra mais famosa é a ‘A Santa Ceia’, justamente na capital da Lombardia. Feita entre 1495 e 1498 a pedido do Duque de Milão, Ludovico Sforza, a icônica pintura mural, de 4,6 x 8,8 metros, decora uma parede do refeitório do monastério dos frades dominicanos de Santa Maria delle Grazie. 

Vale lembrar que, aqui, Leonardo não usou a conhecida técnica de afresco (aplicação de pigmento ao gesso úmido), então muitíssimo utilizada. O artista preferiu usar a têmpera, técnica experimental que misturava gema de ovo aos pigmentos coloridos para depois aplicar a mistura sobre o gesso seco. No entanto, os problemas e rachaduras começaram a aparecer logo após a conclusão da obra, o que provou que a decisão não havia sido a melhor; e 20 anos depois, a pintura já mostrava graves sinais de deterioração. Além dos problemas da pintura em si, o próprio edifício enfrentou umidade, tempestades de verão, bombardeios, entre outros problemas. Embora o convento tenha sido reconstruído após a segunda guerra, a parede do refeitório, suporte para a pintura mural, ficou alguns anos sem proteção e completamente sujeita às intempéries.

 Pinin Brambilla
Leonardo da Vinci
Como em toda obra de arte, em função do desgaste provocado pela passagem do tempo, várias restaurações foram feitas, sendo a primeira em 1726. Todas bem intencionadas, sem dúvida, mas por vezes ineficazes e até prejudiciais. A última durou 20 anos, de 1977 a 1999, e conseguiu trazer a luminosidade das cores de volta à pintura. Foi liderada pela restauradora italiana Pinin Brambilla Barcilon que coordenou a equipe de especialistas. Brambilla é conhecida por restaurar obras de Giotto, Piero della Francesca, Tiziano, Caravaggio, entre muitos outros. A restauração de A Última Ceia de Leonardo foi o grande trabalho de sua vida. Natural de Milão, foi diretora do Centro Internacional de Conservação e Restauro "Venaria Realle", de Turim, um importante centro de formação de restauradores.

Assista aqui ao vídeo da BBC News, em italiano com legendas em português, que traz a restauradora, hoje nonagenária, falando sobre esse trabalho de amor que consumiu de 20 anos de sua vida profissional. Abaixo, um vídeo maior em inglês e italiano, com legendas em inglês, do qual foi extraído o vídeo acima.    


Agora, imagine colocar-se diante de qualquer obra de um gênio como Leonardo para um trabalho de restauração. O indivíduo deve tremer da cabeça aos pés e, sem dúvida, a decisão envolve bom senso, sensibilidade e um grande conhecimento teórico e prático, além de uma enorme dose de humildade. O trabalho de restauração é delicado, minucioso, longo, paciente e sempre, sempre sujeito a críticas. Cada restaurador é responsável pelas decisões que toma (decisões bem  fundamentadas, espera-se) a partir de seu entendimento no momento de avaliação e diagnóstico. Nesse aspecto, o trabalho é bastante solitário, como também o é o do autor de um projeto de arquitetura. O responsável pode trabalhar com vários especialistas, historiadores, arqueólogos, pintores, antropólogos, dezenas de técnicos, mas no fim das contas, a decisão é sempre pessoal, e essa decisão pesa. O mesmo se dá nos trabalhos de restauração: no caso de A Última Ceia, cuja proposta era recuperar o recuperável, houve a retirada de cinco camadas anteriores de tinta, limpeza, secagem e recuperação de aspectos originais da obra. Brambilla afirma que espera ter feito as escolhas corretas, mas isso só o tempo dirá.    
A Última Ceia restaurada. Imagem: Divulgação
Vinte anos e milhões de dólares depois, em 2017, o plano era recuperar as condições ambientais do próprio refeitório, e não a pintura propriamente dita. O custo do projeto, de mais de um milhão de euros, foi financiado pelo empório gastronômico Eataly, único patrocinador privado, e pelo Ministério do Patrimônio e da Cultura e Turismo, da Itália. O projeto contou ainda com várias instituições que participaram da pesquisa inicial: ISCR, CNR, Politecnico di Milano, Universidade Milano Bicocca.
Prevista para terminar ainda em 2019, a intervenção envolveu o uso de maquinário específico para, diariamente, jogar no ambiente 10.000 metros cúbicos de ar limpo, três vezes mais do que antes. Assim é possível minimizar o efeito danoso das micropartículas de poeira, micropoluentes e a umidade produzida pela respiração de milhares de visitantes, que continuavam a degradar a obra. Isso tudo sem falar da ação do tempo, inexorável. A campanha para sua restauração, intitulada “Um jantar não pode terminar assim”, foi pensada para aumentar a vida da obra em 500 anos e permitir a visita de um número maior de pessoas do que as 30 permitidas hoje, a cada 15 minutos. Veja aqui o vídeo, em italiano, de Oscar Farinetti, dono do Eataly, sobre a decisão de proteger a famosa pintura de Leonardo.

Agora, uma pequena ponderação. Diante da visão de uma obra de arte, seja em livros, documentários ou reproduções, é natural sentirmos emoções variadas: surpresa, encantamento, alegria, choque. Porém, nada se compara à sensação provocada pela experiência ao vivo e em cores: aí, o tempo para, ficamos estáticos e extáticos, embevecidos e arrepiados; a respiração fica suspensa; a emoção brota e lágrimas enchem os olhos. Tomados por uma sensação de arrebatamento e perplexidade, é natural que nos questionemos sobre a inspiração que tomou conta do gênio que concebeu e executou aquela ideia, aquela obra, aquela visão. 
Esse é o efeito poderoso, avassalador e único da Arte, efeito insubstituível e inexorável no tempo e no espaço, na formação, criação de repertório, no aprimoramento do pensamento crítico e no desenvolvimento do espírito humano. Não importa o que digam. Arte, Filosofia, História, Geografia, Ciências Sociais, Antropologia, Literatura... as Humanidades, em geral, só tornam o homem humano, muito mais humano, despertando o melhor de cada um para agir no mundo de todos.  

Referências:
https://www.bbc.com/portuguese/internacional-36484529
https://www.bbc.com/portuguese/geral-48138261  
https://veja.abril.com.br/entretenimento/restauracao-da-mais-500-anos-de-vida-a-ultima-ceia-de-da-vinci/
https://www.eataly.net/it_it/mondo-eataly/una-cena-cosi-non-la-puoi-perdere/