sábado, 30 de maio de 2020

Ecos Humanos | A árvore e seus frutos



Outro dia, tentava pesquisar e entender um pouco mais sobre medicina natural, homeopatia e terapia floral, enfim, essas pérolas que a Vida concedeu à humanidade. Depois de algumas buscas, encontrei um site que, à primeira vista, me pareceu interessante: visualmente leve, rico em conteúdo, boas informações para alguém leigo, como eu. Como de costume, fui logo pesquisar a autoria, o famigerado “quem sou eu” e, já nas primeiras linhas da descrição, o autor me cativou. O médico homeopata português, José Maria Alves, descreveu, no site que leva seu nome, sua trajetória com inaudita simplicidade e cita o grande Alberto Caieiro. Foi uma grata surpresa!
Nesses nossos tempos estranhos de hipervalorização de vernizes e aparência, de acúmulo de vaidades e títulos nem sempre autênticos, de desprezo por valores e virtudes reais, fiquei profundamente tocada com a singeleza e a humildade expressa pelo autor para se autodescrever no site que leva seu nome José Maria Alves. Diz ele:


Nascemos em Lisboa no ano de 1953. Seria de bom tom, conforme com a prática social vigente, narrar especificadamente todos os passos da nossa vida que julgássemos relevantes, por serem relevantemente julgados pelos outros, enunciando graus académicos, cursos, seminários, as mais variadas mundividências, nos aspectos que de uma forma imediata ou mediata tenham conexão com as matérias constantes deste site.  Preferimos citar o poeta Caeiro, fazendo nossas as suas palavras:
  “Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
 Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus. (...)”  
Em boa verdade, só quando nos entregamos a nós mesmos é que temos capacidade para nos entregarmos de modo gratuito e indiscriminado aos outros. No restante, que a árvore seja julgada pelos seus frutos. 

O site já está nos meus favoritos, irei lê-lo ao acaso e por prazer, porque, como seu autor sabiamente termina, "pelos frutos se reconhece a árvore".  

Referências

sábado, 23 de maio de 2020

Ecos Culturais | Melancolia


Melancholy. Albert Gyorgi.  Imagem: Divulgação
A arte não precisa falar. Apenas por existir já provoca reações e desnuda aquele que observa. Este pode disfarçar, tentar esconder seus sentimentos e pensamentos mais obscuros e sombrios, mas a reação diante de uma obra de arte escancara o oculto. A arte expõe o observador, quem ele é, como pensa e do que é feito, de fato. Por outro lado, em cada criação, o artista revela o que lhe vai na alma. É inexorável.
Esta foto, por exemplo. Muitos veem nela a representação do vazio da alma, símbolo da falta de fé em algo maior, da falta de Deus. Outros, solidão, ausência, abandono ou um grito mudo de socorro. Outros ainda, apenas a beleza da técnica. Para seu escultor, a obra simplesmente traduzia a dor da perda. 

De forma quase discreta, mas forte e comovente, a escultura denominada Melancholy situa-se às margens do Lac Léman, o chamado Lago Genebra, na Suíça. Fundida em bronze a partir de uma liga desenvolvida pelo próprio escultor, retrata uma figura sentada, voltada sobre si mesmo, de cabeça baixa, como se estivesse sob um peso avassalador. 

 Criador e criatura. Imagem:https://wooarts.com/albert-gyorgy/nggallery  
Fruto de grande esforço mental e emocional, como todas as suas peças, Melancholy, de 2012, foi a forma  encontrada pelo escultor romeno Albert Gyorgy (1949), hoje residente na Suíça, para lidar com a perda da primeira esposa. Sua obra forte e abstrata surge da necessidade visceral de se expressar. Sofrimento e ventura se misturam. A pátina da oxidação e o brilho do polimento também. Ao se mesclarem, passado e presente moldam o agora. A obra revela o abstrato e materializa o sentimento, como se a forma física amenizasse a tristeza e o vazio da perda. 

Divulgada no Face Book, a foto da obra teve milhares de compartilhamentos, mensagens demonstrando conforto e gratidão daqueles que nela identificaram uma perfeita expressão do incomensurável vazio interno que sentiam por perdas semelhantes de tantos outros seres, entes queridos, amigos, amores. Ao vê-la, sentiam-se compreendidos, representados, aliviados em sua dor. 
Sim, a obra acima é a prova concreta de que a arte toca e liberta, mas confesso que, neste momento de tantas mortes no Brasil e no mundo, causadas pela Covid-19, a escultura me toca profundamente, mas não me sinto aliviada. No entanto, a esperança me diz que o futuro trará muitas outras obras impactantes retratando os sentimentos dos tempos atuais. A arte também é memória e história. Aguardemos... 

 has developed a personal alloy of copper and tin which makes it possible to obtain a bronze that is both supple and solid, creating astonishing shades of the patina when it is oxidized, and of a brilliant color when he is polite. ► https://wooarts.com/albert-gyorgy/
e has developed a personal alloy of copper and tin which makes it possible to obtain a bronze that is both supple and solid, creating astonishing shades of the patina when it is oxidized, and of a brilliant color when he is polite. ► https://wooarts.com/albert-gyorgy/
Referências
https://wooarts.com/albert-gyorgy/  

sábado, 16 de maio de 2020

Ecos Humanos | Ídolos com pés de barro


Atena, deusa grega da sabedoria
O termo ídolo vem do grego eídolon (imagem) e do latim idolum (ídolo). Originalmente, eram figuras que representavam divindades, portanto, objetos de veneração religiosa. Daí vem o termo idolatria, adoração de ídolos. Como representantes de divindades, sua função era servir de modelo, inspirar o aprendiz a verticalizar seu olhar e buscar uma meta mais elevada e menos material. 
Aos poucos, o conceito veio do campo metafísico para o humano e, cada vez mais, é usado aleatoriamente para nomear “famosos” que se destacam no mundo artístico ou esportivo. A mídia e as redes sociais são responsáveis pela maioria dos rótulos: reis, rainhas, príncipes e milhões de superlativos: o(a) mais isso, o(a) mais aquilo. Enquanto a galeria de "idolos" fica lotada, os "meros mortais" olham para eles como meta a ser alcançada e modelo a ser seguido. 
Mas, se tais "ídolos-celebridades" são, muitas vezes, admirados pelo desempenho profissional, nem sempre o são pela forma de ser e agir. Lembram pavões que se acreditam maravilhosos, mas não olham os próprios pés. 

Aliás, desde sempre fico impressionada com o "dom" da sociedade para eleger ídolos com pés de barro, cuja ação é totalmente inconsistente com o significado original do termo. A ação desses pseudo-ídolos está a anos-luz daquelas que, de fato, priorizam o bem, o outro, o social, o coletivo. A grande maioria só representa o modelo que o "sistema" considera "bem-sucedido", em termos de ascensão social, estilo de vida, aparência ou haveres, aliás nem sempre obtidos de forma correta. Com seus pensamentos, palavras e atitudes, a maioria envergonha a ética, a verdadeira solidariedade, o respeito e a empatia. Não importa se, de fato, acreditam ou foram levados a acreditar nisso pelo sistema que nos impõe seus valores tortos e fugazes. É preciso assumir a responsabilidade pelas próprias ações, qualquer que seja a posição que ocupamos no mundo.

Bom desempenho profissional é só o primeiro patamar. Essas figuras públicas (e não ídolos, com certeza) deveriam pensar duas vezes antes de agir ou expressar opiniões. Deveriam ter noção de sua influência sobre milhares de pessoas. O filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) chegou a dividir os ídolos em quatro categorias para conscientizar o indivíduo de suas falsas crenças e concepções, mas pelo visto, as falsas crenças continuam causando muito estrago. 

É preciso buscar o ídolo interno, aquele que jamais deixará o indivíduo na mão. É preciso buscar a própria essência divina escondida no fundo do coração. Mas, para quem não consegue viver sem "ídolos", aqui vai uma dica: se precisar mesmo e quiser alguém para admirar, verifique se, de fato, ele age em prol do bem comum, pensando no coletivo e no outro, acima de interesses próprios e mesquinhos e, sobretudo, quando está longe dos holofotes. Caso não seja assim, não se engane: eles não são ídolos, talvez sejam apenas bons profissionais na sua área de atuação, com excelente marketing por trás...

Referências