quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Ecos Humanos | Ter o que dizer

Certa vez li uma frase do escritor tradutor, linguista e semiólogo italiano, Umberto Eco (1932-2016), que, na época, me pareceu um tanto agressiva. Hoje, não poderia estar mais de acordo com o seu pensamento. Em uma entrevista ao jornal La Stampa, Eco disse que as mídias sociais deram voz a uma legião de imbecis (aqui).

 I social media danno diritto di parola a legioni di imbecilli che prima parlavano solo al bar dopo un bicchiere di vino, senza danneggiare la collettività. Venivano subito messi a tacere, mentre ora hanno lo stesso diritto di parola di un Premio Nobel. È l’invasione degli imbecilli.             

[As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de imbecis que antes só falavam na mesa de bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade. Eram rapidamente silenciados, mas agora têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis.] Umberto Eco ao jornal La Stampa, 11 junho 2015.

Sim, porque manifestar sua "opinião", em frases que começam com o famoso "eu acho" atrás da tela de um computador é fácil. Difícil é defender com argumentos sólidos o que fundamentou essas opiniões. Sabemos que uma imensa quantidade dos comentários das redes sociais carece de verificação da veracidade da informação, de análise isenta, dimensão histórica, pensamento crítico, visão abrangente, ética e por aí vai...

A esse respeito recomendo o excelente artigo de Elenira Vilela, professora no Instituto Federal de Santa Catarina e líder sindical. O artigo já começa com um questionamento: — Você precisa falar sobre tudo? Você tem criticado o opressor mais do que critica as tentativas de resistência e enfrentamento dos oprimidos?

Pronto. A pergunta já mexe com nossos brios, mas refiro-me não só a questões políticas (trágicas, por sinal), mas a qualquer assunto. Acho que todo mundo conhece alguém que não consegue ouvir algo sem emitir uma opinião a respeito, concordam? E o pior é quando esse alguém repete e divulga notícias enganosas. Quando eu pergunto: — Onde você obteve essa informação? A resposta é: — No Instagram, no WhatsApp ou no FB. Convenhamos, não dá para levar isso a sério, né? O fato é que esse comportamento leva a diversas formas de incompreensões, incitamento a violência e criação de alvos fáceis nessa era de pós-verdades.   

Em seu artigo, Elenira Vilela recorda que aquele que quer opinar sobre movimentos sociais, por exemplo, deve perguntar-se se tem direito, legitimidade e condições de falar sobre aquele tema e com qual objetivo. Diz ela (e eu concordo) que além do compromisso crítico e analítico que qualquer palavra escrita ou falada exige, falta-nos o compromisso ético.

O mais triste talvez seja perceber que, mesmo com uma pandemia que já levou dois anos da nossa vida, a ficha ainda não caiu para muitos que acham que tudo voltará ao “normal”. Que normal? Pois foi o “normal” que levou a isso tudo. Será que ainda não ficou claro? Já passou da hora de mudar e mudar significa, para começar, reexaminar-se, analisar-se, avaliar seu comportamento com isenção e transformar-se.  

Vários autores já falaram sobre isso: Márcia Tiburi, Leandro Karnal, Mário Sérgio Cortella, Leonardo Boff, Frei Betto, entre muitos outros. Do meu lado, sugiro a leitura de outro post aqui no blog: a resenha de Gramática da Manipulação, livro de Letícia Sallorenzo, jornalista e mestre em Linguística pela Universidade de Brasília. No livro ela analisou como a grande mídia dá as notícias. O leitor comum não percebe essas sutilezas e, de tanto ler as mesmas coisas do mesmo jeito, na mesma ordem e com a mesma ênfase, acaba por aceitar aquela versão dos fatos como verdade. E a replicar o que leu, sem questionar, sem checar a fonte, sem uma leitura mais profunda e crítica, criando uma linha de pensamento paralela, num processo que exige mais reflexão, mais empatia e mais cuidado com a dor alheia.

Enfim, é bom lembrar que existe vida fora das redes sociais e que a linguagem das redes também pode ser (muito) violenta, preconceituosa e mentirosa. Conclusão: é preciso ler com um pé atrás, buscar outras fontes, analisar outros dados históricos e fazer as contas e as conexões devidas, pois ler é muito mais do que entender o que está escrito. 

Antes de escrever e publicar sua opinião sobre qualquer coisa, vale avaliar: tenho certeza absoluta do que vou dizer, tenho legitimidade para isso? E, mais, humildemente vale perguntar-se por que sua opinião interessaria aos demais leitores. Termino com uma frase singular do texto de Elenira Vilela:

Enfim, a sabedoria popular vive nos lembrando que temos dois ouvidos e uma boca, que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro. Se, na maior parte das vezes, a única atitude que te passa pela cabeça é opinar sem reflexão, talvez calar seja a única opção realmente ética.

 

Referências:

https://www.viomundo.com.br/voce-escreve/elenira-vilela-falta-etica-na-publicizacao-de-opinioes-de-muita-gente.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2019/04/ecos-literarios-gramatica-da-manipulacao.html
https://www.lastampa.it/cultura/2015/06/11/news/umberto-eco-con-i-social-parola-a-legioni-di-imbecilli-1.35250428

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Ecos Literários | Torto Arado

Demorei um pouco para ler o livro Torto Arado, não por falta de vontade ou curiosidade, mas porque outros livros estavam na fila e porque queria esperar um pouco para ler mais sobre tão elogiado e premiado livro. Não gosto de ler livros badalados de cara. Sempre dou um tempo. Mas o livro levou os prêmios LeYa (Portugal, 2018), Jabuti e Oceanos (Brasil 2020). Aliás, só depois do prêmio português é que conseguiu ser publicado aqui. Li artigos, entrevistas e resenhas. Itamar é um jovem autor baiano alegre, calmo, consciente, atuante e de olhar doce. Ótimo sinal!

Quando o livro me caiu nas mãos, durante as festas de final do ano, eu o devorei em três dias, em meio às tantas obrigações cotidianas de um período festivo e de uma casa cheira. Mas não se enganem, com cheia, quero dizer com três pessoas além dos moradores habituais. 

Para começar fui saber quem era o autor, o baiano Itamar Vieira Junior (1979), geógrafo com mestrado e doutorado pela Federal da Bahia – UFBA. No doutorado, fez uma pesquisa em estudos étnicos africanos, com ênfase em antropologia. A profissão de geógrafo, como servidor público do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), permitiu que ele viajasse e conhecesse mais a fundo a realidade relacionada aos trabalhadores rurais, à terra (e aos conflitos a ela relacionados) dos sertões do país, não só da Bahia. Aliás, diz ele que Torto Arado já tinha vinha sendo escrito há alguns anos. Desde sua juventude, mais precisamente, quando o autor conheceu essa realidade e sentiu que tinha que contar a essência daquela história.

Com um estilo único e envolvente, ele traz personagens sofridos, resilientes, com nomes fortes, inesquecíveis - como a Bibiana de Érico Veríssimo (e agora, com certeza, de Torto Arado) ou a Blimunda de Saramago, de O Memorial do Convento. Já falei sobre as mulheres de Saramago, aqui no Blog. Junta esses personagens em um romance doído que fala das nossa raízes e do nosso passado colonial, tema ainda atual e tristemente ignorado pela maioria dos brasileiros, sobretudo pelos que moram em grandes cidades.

Os personagens: os membros daquela comunidade negra (fictícia?) de pequenos agricultores, quilombolas, descendentes de escravos. 

O cenário: Fazenda Água Negra, no sertão remoto da Chapada Diamantina, na Bahia.

A época: ontem, hoje e, talvez, amanhã.

O livro mostra um Brasil profundo, sempre escondido nas propagandas institucionais, aquele Brasil do regime de servidão e exploração, do latifúndio, da prepotência, dos privilégios, das tradições, de histórias não contadas, da religiosidade e do realismo mágico, da mestiçagem, da seca, das enchentes, das casas de barro, do trabalho de sol a sol sem salário, sem direito a uma casa decente, sem escolas, sem assistência, sem perspectivas. Fala da solidariedade entre os membros dessa comunidade, de sua relação com a terra, da aceitação silenciosa daquela situação, dos questionamentos latentes e do “preço” pago pela conscientização. Mostra a violência contra a mulher e contra os que pensam diferente, mostra o racismo e a exploração, como algo que sempre existiu e sempre vai existir enquanto não tomarmos consciência de que estamos todos juntos nessa caminhada. Ninguém cresce sozinho; ninguém evolui se alguém ficar para trás. 

Na trama, o autor utilizou os elementos mágicos do jarê, um híbrido de religião de matriz africana, catolicismo rural e xamanismo, ainda hoje praticado naquela região da Bahia, sob a liderança do líder religioso, curador e pai das personagens principais, Zeca Chapéu Grande. O jarê apresentava-se como elemento de conexão entre os personagens, ajudando-os a suportar a dura realidade. Além do jarê, difundido em sua obra, Itamar Vieira Jr. destaca que utilizou uma linguagem universal, ainda que pontuada por termos do léxico cotidiano da Chapada. Porém tais termos não chegam a interromper o fluxo da leitura ou causar estranhamento. Vez ou outra eu parava para buscar entender melhor algumas palavras, mas por curiosidade minha. 

Três capítulos com título e vários subcapítulos apenas numerados compõem o romance. Três vozes femininas fazem a narrativa forte em primeira pessoa - as duas irmãs Bibiana e Belonísia, e Rita pescadeira, uma entidade do jarê. De novo, na literatura e na vida, a mulher assume a liderança da trama. 

Itamar Vieira Jr. Foto:UFMG

Mais uma vez, a Literatura mostra a que veio. Abre horizontes, desnuda verdades camufladas e nos mostra nossa própria história. Inteligente, brilhante, corajoso e muitíssimo bem escrito e bem amarrado, o livro me encantou, me fez chorar e me deixou muda em vários momentos. Não digo que foi transformador para mim, porque, desde sempre, me posiciono contra injustiças e opressão, mas, sem dúvida, foi um libelo contra o esquecimento e a cortina que se coloca sobre o Brasil real, em pleno século 21. Torto Arado já nasceu um clássico. É preciso ler, refletir muito e divulgar, porque, com esse tipo de literatura, é possível sonhar de novo que o país tem jeito.  

Em tempo: A sensacional capa é de Elisa Randow, com base em uma foto antiga.

Livro: Torto Arado. Itamar Vieira Junior.

São Paulo: Todavia, 2019. 264 p. 

Referências:

http://www.letras.ufmg.br/literafro/resenhas/ficcao/1465-itamar-vieira-junior-torto-arado

https://www.youtube.com/watch?v=lvZjGRBXuhw

https://www.youtube.com/watch?v=Bh7oR7oSKAw

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Ecos Culturais | Forró na alma e na veia

O patrimônio cultural brasileiro integra uma série de bens (com valor artístico, histórico, natural, arqueológico, etnográfico, paisagístico, turístico, folclórico, bibliográfico etc) e divide-se basicamente em dois tipos: bens materiais (bens móveis e imóveis, centros históricos, edifícios, conjuntos arquitetônicos, obras de arte, objetos, acervos e documentos) e bens imateriais (idioma, dialetos, tradições, costumes, festas, rituais, celebrações, saberes, ofícios e modos de fazer). Ou seja, as mais diversas manifestações artísticas e culturais do nosso país. O conceito de bens imateriais foi definido, por lei, no país desde 2000. (Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000).

Hoje, nosso riquíssimo patrimônio imaterial inclui literatura de cordel, viola de cocho, feira de Caruaru, frevo, arte sineira, ofício das paneleiras, doceiras, roda de samba, capoeira, entre muitos outros (veja a lista completa aqui).  Da lista, seis foram listados pela Unesco como patrimônio cultural imaterial da humanidade: Samba de Roda do Recôncavo Baiano; Arte Kusiwa-pintura corporal e arte gráfica Wajãpi; Frevo; Círio de Nazaré, Roda de Capoeira e Bumba Meu boi.    

Pois  a essa turma da pesada veio juntar-se o forró, esse ritmo tão nosso, tão nordestino, tão alegre, tão dançante, que fala à alma brasileira e que reúne outros ritmos como baião, xote, xaxado, chamego, quadrilha, entre outros. O folclorista Luiz da Câmara Cascudo, dizia que forró vem do termo forrobodó (divertimento pagodeiro). E tanto o forró como o pagode (que hoje designa samba) são festas transformadas em gêneros musicais. 

Aliás, já existe um Dia Nacional do Forró, 13 de dezembro, aniversário de Luiz Gonzaga (1912-1989), seu maior representante. A data foi criada  em 2005 (Lei 11.176, 2005) no governo do então presidente Lula, a partir de projeto da deputada federal Luiza Erundina (1934). Paraibana, há anos morando na capital paulista, a deputada federal por São Paulo nunca negou suas raízes e, agora, comemora o novo patrimônio imaterial brasileiro, dez anos após do pedido feito pela Associação Cultural Balaio Nordeste, da Paraíba. Em dezembro último, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN declarou o forró como um super gênero e patrimônio imaterial brasileiro, quatro dias antes do Dia do Forró.

Para valorizar nossa cultura, é essencial conhecer, por só amamos o que conhecemos, Então, segue aqui uma brevíssima história do forró, dividida em três fases/gerações:

Jornal da USP. Divulgação.

1ª geração: O pioneiro, chamado de pé-de-serra, do final dos anos de 1930 e dos anos 1940, usava sanfona de oito baixos, zabumba e triângulo. Luiz Gonzaga, rei do baião e do forró, e Carmélia Alves, rainha do baião, eram os principais nomes. além de Dominguinhos, Marinês, Trio Nordestino, Jackson do pandeiro, Antônio Barros e Pedro Sertanejo. 

2ª geração: A partir de 1975, surgiu o forró universitário que modernizou o gênero, juntando o forró tradicional à musicalidade do pop e aos músicos da MPB. À sanfona juntaram-se pandeiro, órgão eletrônico, trombone e percussão. Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Jorge de Altinho e Nando Cordel são alguns nomes dessa primeira fase. A partir dos anos 1990, a segunda fase dessa segunda geração tem Falamansa, Forroçacana e Trio Rastapé.

3ª geração: Forró eletrônico, estilizado ou “oxente”music, numa roupagem mais moderna, com mais brilho, iluminação, bailarinos e tecnologia avançada. Com Mastruz com Leite, Magníficos e depois com Aviões do forró, Calcinha Preta, Caviar com Rapadura, Garota Safada. 

Confesso que prefiro as duas primeiras... Mas, de qualquer modo, é impossível não comemorar a escolha pela preservação da cultura; é impossível viajar ao Nordeste e não dançar ao som desse ritmo delicioso que, segundo Alceu Valença (1946), cantor e compositor pernambucano,

[...] é filho do coco e da embolada, primo do aboio, do martelo e da toada, parente dos poetas cantadores e da literatura de cordel. Suas matrizes foram desenvolvidas no mais profundo sertão nordestino, resultado da herança ancestral mourisca, lusitana, africana, com aquele balanço que só o brasileiro tem. Por isso eu digo que o forró é meu canto, que canta meu povo e os segredos da vida. (1)


Pura verdade! O forró vem da nossa mais pura e profunda matriz, do nosso cadinho cultural, herança de tantos povos, tudo temperado com o nosso jeito, nosso balanço, nossa alegria.  Viva o forró! Viva o Brasil profundo! 

Nota e Referências

(1)https://www.redebrasilatual.com.br/cultura/2021/12/forro-patrimonio-imaterial-sonoridade-brasileira/

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2021/12/09/forro-e-declarado-patrimonio-imaterial-brasileiro-pelo-iphan.ghtml 

https://portalaracagi.com.br/curiosidades-forro-um-pouco-da-historia-do-ritmo-do-nordeste/