sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Ecos Culturais | Consumo equilibrado e consciente

      Fechei os olhos e pedi um favor ao vento. Daqui para frente, levo apenas o que couber no bolso e no coração. (Cora Coralina)


Tanta coisa deveria ser, mas não é; deveria ter sido, mas não foi.... Por exemplo, o drama vivido pelo mundo todo durante e depois da pandemia de Covid-19, dos desastres ambientais, dos eventos climáticos extremos no mundo todo, das guerras... Cada um desses dramas poderia ou deveria ter sido um chacoalhão na nossa forma de viver, da humanidade, em geral. Não foi. Numa visão panorâmica, o que vimos foi um aumento do individualismo, da ganância, do egoísmo, do desrespeito às leis, ao outro e um exagero na ânsia de consumo – bens móveis e imóveis, terra, objetos, roupas, comida, bebida, informação, uso do celular.... Todo excesso é desperdício e mau uso: de dinheiro, de alimentos, do espaço do outro, de recursos do planeta e do tempo de cada um, tempo necessário para analisar, refletir, aprender e conviver. 

Tristes trópicos, triste mundo. Essa avidez me traz a imagem de uma das pragas bíblicas - gafanhotos vorazes atacando e destruindo tudo por onde passam, figura usada em palestra do jornalista André Trigueiro e, no texto Simplicidade e infância da escritora e educadora Eugênia Pickina, no qual me inspirei para escrever este post. 

Para que a pressa, para que a ânsia de ter mais e mais? Para quê? No fundo, tudo é excessivo, frenético e aflitivo, como a repetição e a sucessão veloz de imagens em comerciais, notícias e filmes publicitários. Para mim, são cenas insuportáveis (e olhem que nem tenho labirintite). E por que me é insuportável? Porque não há tempo suficiente para olhar, ver, buscar detalhes, entender, apreender, analisar, comparar, refletir. No entanto, segundo estudos, essa é a “estratégia” usada para impregnar tais imagens/ideias na mente dos consumidores/ espectadores.

Felizmente há novos ventos no ar. Profissionais e empresas dos mais diferentes campos vêm alertando sobre a necessidade inadiável de uma mudança radical de postura, no sentido de reconhecer, reaproveitar, renovar e recuperar o momento, o construído, o já existente e, dessa forma, criar uma economia mais sustentável, consciente, colaborativa e menos dizimadora para todos e no mundo todo.  

O movimento slow food, por exemplo, já não é tão novo. É bem conhecido e foi criado como oposição ao chamado fast food. Pois bem, na mesma linha surgiu, em 2015, o ‘low consumerism’, como reação contra o consumismo exagerado e propondo um estilo de vida de consumo consciente. Afinal, por que alguém precisa de 30 pares de sapatos, 20 vestidos, 15 bolsas, 10 pares de óculos ou 50 brinquedos? Um dia tudo isso vai para o lixo, que cresce a cada dia. O lowsumerism prega, então, mais consciência na hora de consumir. Propõe que, antes de comprar qualquer coisa, o indivíduo responda a três perguntas essenciais: se de fato precisa daquilo; se, em vez de comprar, não existem alternativas de menor impacto sobre os recursos naturais (como trocar, consertar ou fazer); e, por fim, se não seria capaz de viver somente com o necessário. Cada uma dessas respostas requer coragem, decisão e comprometimento com o coletivo para gerar mudanças efetivas. 

Há tempos, a natureza vem dando sinais de exaustão e, como exemplo é tudo, é fundamental que, na prática e não só no discurso, ensinemos a nossos filhos, estes a seus filhos e assim por diante, a terem consciência de que vivemos num planeta COMUM com recursos finitos e pelo qual TODOS somos responsáveis. 

Referências

https://www.sepac.com.br/blog/chefe-sepac/entenda-o-lowsumerism-a-onda-do-consumo-consciente/

https://espiritismo-seculoxxi.blogspot.com/2023/11/cinco-marias-simplicidade-e-infancia.html?m=1

https://blog.fretadao.com.br/lowsumerism-a-nova-forma-de-consumir/ 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Ecos Literários | Contos de fadas (3/3)

Concluo agora a série de três posts sobre contos de fadas (se ainda não leu, leia parte 1 e parte 2). 
Não pense, caro leitor, que apenas crianças gostam dessas histórias. Basta ver a quantidade de fãs loucos pelas sagas de Star Wars (Guerra nas Estrelas) de George Lucas, The Lord of the Rings (O Senhor dos anéis) de J. R. R. Tolkien, Harry Potter de J.K. Rowling ou Star Trek (Jornada nas Estrelas ) de Gene Roddenberry. São obras que, com certeza, pais e professores também leem ou acompanham. Eu li algumas delas, em especial as do simpático bruxinho de Hogwarts. Como discutir com os alunos sem ler o livro do momento? Vi, li, cansei de algumas coisas, gostei de outras. Gostei mais ainda das soluções encontradas (como quadribol, por exemplo) pela excelente tradutora Lia Wyler (1934-2018), com quem cheguei a fazer algumas aulas e oficinas. Inesquecíveis! 
 
Bom, esses livros trazem elementos das antigas histórias tradicionais que povoam nossa mente e são permeados pela inequívoca luta do bem contra o mal. Mas, com o tempo, as narrativas se desenvolveram e evoluíram. Se antes eram passadas de geração em geração pela tradição oral, a partir do século XVII começaram a ser escritas. Portanto, é difícil precisar suas origens, aliado ao fato de que cada região tinha seus próprios contos, mitos, fábulas, com dados de sua cultura e geografia. Temos os contos nórdicos, os chineses, os árabes, os indianos etc. Por isso, quando lemos “contos originais de...”, é preciso lembrar que talvez não sejam tão originais assim: o que lemos pode ter sido ouvido, mal repassado, modificado e adaptado. Outro motivo para documentar e resgatar os contos de fada foi o interesse de estudiosos como  Charles Perrault, os Irmãos Grimm e Hans Christian Andersen com o estudo das línguas e das tradições locais.

Mas vamos lá: contos de fada para quem e para quê? Bem, sua finalidade inicial era entreter os convidados dos salões europeus, encontros onde a aristocracia se reunia para socializar, dançar, ouvir música e histórias. Mas não só. Os contos eram também contados por moradores das cidades, em geral, e pelos camponeses. Talvez por isso, esses contos de fadas não tenham, necessariamente, uma moral clara, como as fábulas, mas trazem, sem dúvida, perfeitas noções de comportamentos variados e suas consequências. Para bom entendedor... 

E de início, os contos objetivavam alertar as pessoas sobre perigos e situações estranhas. Porém, com o tempo, começaram a se voltar para o público infantil. Foi com a indústria cinematográfica, especificamente com a Disney, que ganharam versões mais suaves e palatáveis para esse público. Nas versões para o cinema, os finais (muitas vezes trágicos) dos contos foram amenizados e transformados em “finais felizes”.  

Além disso, os próprios pais faziam (fazem?) adaptações ao contá-los para seus filhos pequenos, não? Eu sou um exemplo... No entanto, hoje existem muitos estudos que consideram negativa a suavização feita pela Disney nos anos 1950, por ter alterado demais as histórias, numa época em que se acreditava que as crianças não deveriam ter contato com determinados assuntos.

De qualquer forma, saindo em defesa desses contos, o próprio Tolkien, professor de literatura da Universidade de Oxford, publicou um ensaio intitulado Sobre Histórias de Fadas, no qual afirma que "a principal importância dos contos de fadas é revelar aspectos e belezas da vida, da realidade, e levar as pessoas a encontrarem e descobrirem o bem." Ainda hoje existem muitos estudos pesquisando a origem e os autores/autoras desses contos, a exemplo da pesquisadora, tradutora e professora paulista Susana Ventura, autora de livros premiados sobre o tema.

Resumindo, é inegável que os contos de fada mostram a magia da vida real e também aspectos da realidade que as crianças têm dificuldade em entender e elaborar. Mas também é inegável que continuarão, por muito tempo, a ser um rico manancial para a elaboração das emoções infantis. Viva a magia da literatura!

Referências 

https://tolkienista.com/2020/04/03/sobre-estorias-de-fadas-de-j-r-r-tolkien-uma-apresentacao/
https://www.estudokids.com.br/a-origem-dos-contos-de-fadas/
https://www.justlia.com.br/2009/07/a-verdade-e-a-origem-dos-contos-de-fadas/
http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-112347/?page=5
https://super.abril.com.br/especiais/o-lado-sombrio-dos-contos-de-fadas/
http://www.dfe.uem.br/comunicauem/2019/08/28/era-uma-vez-as-origens-dos-contos-de-fadas/
https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160120_contosfadas_origem_tg
https://blog.leromundo.com.br/origem-dos-contos-de-fadas/
https://tolkienista.com/2020/04/03/sobre-estorias-de-fadas-de-j-r-r-tolkien-uma-apresentacao/
https://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/Qual-o-fascinio-dos-contos-de-fadas-hoje
https://pedagogiaaopedaletra.com/origem-significado-contos-fadas/
https://www.sobrelivros.com.br/entrevista-lia-wyler/