quinta-feira, 29 de abril de 2021

Ecos Urbanos | ComPaz- Centros Auspiciosos

Imagem: Brasil-Escola.
Em geral, para nos informarmos, buscarmos primeiro as notícias locais e, só depois, as mais gerais e de áreas específicas, no meu caso, tradução, línguas, arquitetura e urbanismo, patrimônio cultural, yoga. Nessa busca, descubro informações, tradições e iniciativas singulares que despertam o interesse e aquecem o coração. Um exemplo recente vem da capital pernambucana: um projeto que vai ao encontro do pensamento dos profissionais que defendem a implantação de políticas públicas para diminuir a desigualdade social e a violência urbana.

Ao revisar a tese da arquiteta Daniela Getlinger, para a FAU Mackenzie, vi uma referência aos denominados ComPaz, em Recife e, atraída pelo nome, fui pesquisar. Trata-se dos Centros Comunitários da Paz, equipamentos inspirados no conceito de biblioteca-parque de Medellín. Já é sabido que as cidades colombianas de Bogotá e Medellín, através de um desenho urbano e políticas públicas eficientes, conseguiram melhorar a qualidade de vida nos bairros mais carentes. A ideia  por trás de cada um desses centros é que "desigualdade gera violência" e, portanto, a solução é reduzir a desigualdade, construindo fábricas de cidadania e equipamentos que melhorem as condições de vida das áreas mais afetadas, levando "o melhor para quem mais precisa". Todos esses ComPaz oferecem biblioteca e uma série de outros serviços jurídicos, educacionais, culturais, esportivos para todas as idades, mas privilegiando jovens e crianças. O projeto foi reconhecido, em 2019, pela Oxfam Brasil |Cidades sustentáveis como a melhor proposta brasileira de combate à desigualdade social.

COMPAZ Ariano Suassuna, Recife. Divulgação

Uma bela proposta, mas é preciso mencionar os precursores da ideia. A primeira semente vem do conceito de escolas-parque do educador baiano Anísio Teixeira (1900-1971), escolas democráticas e de educação integral pensadas para atender à comunidade onde se inserem e para ser fator de mudança. Depois, vieram as ideias de Paulo Freire, Moacir Gadotti, Mário Sérgio Cortella e outros tantos que viam a educação como única saída para o país. Essa ideia influenciou gerações de educadores, como Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes. Daí derivaram, entre outras iniciativas, as escolas-parque, os CIEPS e os Centros Educacionais Unificados (CEUs). Estes começaram a ser pensados no início dos anos 2000, na Gestão de Luiza Erundina (PT), tendo Paulo Freire como secretário de Educação e depois foram implantados em 2002, em São Paulo na gestão de Marta Suplicy (PT). Foram mantidos ao longo do tempo e ampliados com o Programa Territórios CEU (Gestão Fernando Haddad, PT, 2013-2016), levando o papel desses centros para o entorno. Hoje, são referência de equipamentos educacionais e de políticas públicas emancipatórias e humanizadoras. Centros comunitários, como programa arquitetônico, têm um papel importante de desenvolver a cidadania e despertar a sensação de pertencimento e confiança na comunidade. É o que propõe cada ComPaz. Aliás, educação integral inclusiva de qualidade com arte, cultura e esporte para todos é a saída para qualquer país.

Além disso, partindo da ideia de Anísio Teixeira como semente que frutificou, sem me estender nos seus inúmeros e felizes desdobramentos, vou me ater ao exemplo recente dos ComPaz, para lembrar atitudes essenciais no setor público, como: 

Continuidade de políticas públicas eficazes que beneficiam a cidade como um todo. No caso de Recife, o secretário de Segurança Urbana da gestão anterior (PSB), Murilo Cavalcanti, foi convidado pelo atual prefeito (PSB) a permanecer no comando da secretaria, hoje Secretaria de Segurança Cidadã. Especialista em urbanismo social, políticas inclusivas e de prevenção da violência urbana, Cavalcanti é autor do livro “As lições de Bogotá e Medelín. Do caos à referência mundial” e o responsável pela implantação dos ComPaz. Com certeza, ele bebeu na fonte de Anísio Teixeira e de seus derivados.

Interesse real em conhecer políticas públicas eficazes e adaptá-las localmente, buscando a melhor solução para a população. O projeto dos ComPaz só foi apresentado e implantado em Recife, uma das cidades mais violentas do Brasil, após Cavalcanti ter feito 32 visitas às cidades de Bogotá e Medellín para entender melhor as ações que reduziram a violência naquelas cidades. Hoje, os ComPaz são vistos como oásis de cidadania nas comunidades carentes, como o são as demais escolas-parque, CEUs ou similares, quando conseguem atuar. 

Sensibilidade para ver e apoiar a cultura na base de qualquer ação de cidadania. O Secretário de Cultura do Ceará, Fabiano Piúba, na 12ª Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco (agosto 2019), resume o conceito em uma frase: “Educação sem cultura é só adestramento, assistência social sem cultura é só assistencialismo, segurança sem cultura é só repressão”. Na proposta de Anísio Teixeira, dos CIEPS de Darcy Ribeiro e dos CEUs, alimentação, arte, cultura e esportes eram essenciais.

Discernimento para escolher o nome do homenageado nesse tipo de equipamento, indivíduos que, de fato, pensavam em justiça social, como Miguel Arraes (1916-2005), Ariano Suassuna (1927-2014) e Dom Helder Câmara (1909-1999). O próximo ComPaz fará homenagem ao Educador (com letra maiúscula) Paulo Freire (1921-1997). Há ainda muitas figuras que Pernambuco deu ao Brasil à espera desse reconhecimento. Até hoje foram construídas cinco unidades: o primeiro, o Compaz Eduardo Campos foi inaugurado em março de 2016. Depois vieram o Ariano Suassuna, março 2017; o Miguel Arraes, dezembro 2019 e o Dom Helder Câmara, dezembro 2020. 

Além de secretarias municipais e estaduais, o Compaz faz parcerias com outras entidades, a depender dos serviços oferecidos. Que sirva de exemplo a outras cidades, em sua ação prática por mais direitos, mais educação, mais cultura, mais cidadania, mais oportunidades e menos violência, menos tráfico, menos desigualdade. Vida longa às escolas-parque, aos CIEPS, aos CEUs, aos Territórios CEUS e aos COMPAZ! 

Referências

GETLINGER, Daniela. Plano de ação local como elemento de integração e territorialização de políticas públicas em áreas de vulnerabilidade social: o caso do jardim lapena. Tese de doutoramento, FAU-Mackenzie. São Paulo, 2021.
Prefeitura de São Paulo. Território CEU: rede de equipamentos e espaços públicos. SPaulo: Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano-SMDU, 2016.

http://www.cultura.pe.gov.br/canal/patrimonio/mesa-redonda-no-compaz-discute-o-papel-dos-espacos-na-educacao-cultura-e-cidadania/
http://www2.recife.pe.gov.br/noticias/19/12/2020/prefeito-geraldo-julio-entrega-compaz-dom-helder-camara-quarta-fabrica-de
http://www2.recife.pe.gov.br/node/290609

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Ecos Humanos | Enquanto isso...

Abril de 2021. 

A pandemia da Covid-19, causada por um vírus invisível e iniciada na virada 2019-2020, já ceifou a vida de mais de três milhões de pessoas no mundo e, até hoje, só no Brasil mais de 350.000 pessoas. Não sabemos até quando, como irá acabar ou se iremos conviver com o vírus por anos a fio. O importante é fazer o que deve ser feito: seguir as recomendações sanitárias para se proteger, evitar aglomerações, manter a sanidade mental e, assim, proteger familiares, amigos mais próximos e, portanto, os mais distantes. Como num imenso jogo de dominó em escala 1:1, a ação de cada indivíduo influenciaria para o bem a ação dos outros. Em suma, todos agindo conscientemente e cuidando uns dos outros. Seria lindo se isso acontecesse. Sabemos que não. No tsunami de informações recebidas e emoções vividas no atual momento, vemos milhões de individualistas, desavisados, alienados e cruéis agindo como se nada fosse ou não houvesse amanhã.

Enquanto isso, recebi esta semana, de um amigo de décadas, um texto assustadoramente premonitório. Escrito em junho de 2008, o mesmo texto foi publicado na edição do mês seguinte no jornal O Nosso. Carlos Sá* (esse é o nome do meu amigo) saiu de São Paulo há anos. Hoje mora com seus queridos em Sobradinho, no Distrito Federal, agindo como sempre agiu: com serenidade, consciência planetária e solidária. Vida longa e frutífera a você, meu caro amigo! Com certeza, o mundo seria pior sem você. Segue o texto.

“Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois, pra melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão; recriar o paraíso agora, para merecer quem vem depois”.
O Sal da Terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos).

                             ENQUANTO ISSO...

A televisão é um barato. Barato triste.
Chega o inverno e a grande notícia é a baixa temperatura na serra catarinense e na gaúcha. Deslocam-se equipes de TV, repórteres cheios de agasalhos, turistas em busca de ver a neve cair, tanta atração fantástica, não? (Enquanto isso... na grande cidade, muitos procuram jornais e caixas de papelão pra amenizar as frias noites de inverno).
A modelo fulana de tal vai desfilar em algum evento de moda.... Poxa, que “frisson”, que acontecimento. Será que ela está mais magra? Será que está saindo com alguém? Quem será o felizardo da vez? Quanto será o cachê dela? (Enquanto isso... centenas de pessoas continuam catando seu sustento no lixo).
E as dicas de viagens, então? Se eu fosse você iria pra Campos do Jordão, a temporada de inverno este ano está chiquérrima. Que tal um fim de semana lá? O dinheiro pra isso? Ora, você não tem? Passe na Financeira de plantão e se endivide....  (Enquanto isso... milhares de cidadãos continuam acordando de madrugada, perdendo horas no transporte pra ganhar um salário que nem pode ser chamado de salário... isso quando têm emprego).
Enquanto isso, de novo, nosso planeta está caminhando pra uma grande mudança. O egoísmo é o que faz essa marcha se acelerar. Vemos um monte de carros indo na mesma direção e, invariavelmente, com uma só pessoa em seu volante. Vemos comida, água e energia serem desperdiçadas a todo o momento, mesmo dentro de nossas casas. Vemos pessoas infantis cheias de vontades e mimos, sem consciência alguma de que se não mudarmos velhos hábitos, todos pagarão um preço pesado.
É...a humanidade vai cavando sua própria cova. Caminhando como uma manada para o precipício. Que logo vai chegar.
PS: À maneira de certos filmes, este artigo foi baseado em fatos reais, escrito em j de 2008, em São Paulo (SP).

*Carlos Sá é jornalista, escritor e há 22 anos colabora com o jornal O Nosso, da  Cidade Eclética, uma comunidade espiritualista localizada em Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, a 45 km de Brasília e 172 km de Goiânia.

Email: carlitos.way@uol.com.br.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Ecos Imateriais | Yoga e os Jardineiros da Vida

Como já mencionei, desde o início da pandemia do coronavírus, além dos textos do blog Anita Plural (O vírus do despertamento, Os Novos Tempos (1) e Os Novos Tempos (2), entre outros, fazendo referência à situação atual vivida pela humanidade e que são uma forma de me colocar no mundo, eu me perguntava o que fazer para minimizar a ansiedade e os desafios trazidos pelo momento para alunos, amigos e família. Como espiritualista e professora de yoga, achei que deveria propor uma palavra, uma reflexão, algum tipo de apoio. Assim, depois das aulas de yoga em áudio, substituí o grupo de práticas pelo grupo Refletindo com ...(Anita), através do qual levava mensagens diárias de grandes figuras da humanidade.

Uma série delas trazia os conceitos conhecidos como yamas e niyamas, um abrangente código de conduta e os dois primeiros passos dos oito que compõem a filosofia do yoga, o Ashtanga Yoga de Patanjali. Assim, resumi esses ensinamentos únicos e aplicáveis em todas as épocas. Segue aqui uma ótima analogia. De fácil entendimento, o singelo relato resume e ilustra o que deveria ser a nossa prática no dia a dia, com ou sem pandemia.

* * * * * 

Imagine-se como um jardineiro. Para desenvolver-se bem, ficar viçoso e deixar as flores desabrocharem, seu jardim (ou qualquer outra atividade) precisa de empenho, esforço, energia e carinho. É preciso cultivar a mansidão (ahimsa), ser verdadeiro (satya), íntegro (asteya), moderado (brahmacharya) e desapegado (aparigraha). A cada dia, sem se iludir e sem preguiça, sem dar um jeitinho torto, cada um vai escolher como cuidar do seu jardim: com pureza (saucha) limpando, cuidando e preparando o terreno; com alegria (santosha) abrindo-se, recebendo e agradecendo o sol, a chuva, o vento e as sementes; com esforço (tapas) retirando as ervas daninhas que insistem em germinar e misturar-se às boas sementes; com estudo (svadhyaya), conhecendo a natureza, aprendendo sobre cada planta e aprendendo a esperar; ao término do plantio, praticando a entrega (Ishvara Pranidhana), cada um oferta ao universo aquele trabalho, para o qual deu o seu melhor, confiando que qualquer resultado está de acordo com a lei maior.

A cada dia, a cada etapa do plantio no jardim da vida, é preciso agir de forma correta, fazer o nosso melhor e, então, entregar e confiar, porque no tempo certo (da natureza, não no nosso tempo) o broto surge. A prática dos yamas e niyamas favorece essa reconexão com o Todo; quando assimilamos esses conceitos, o yoga passa a fazer parte de nós, passamos a viver, transparecer e ser yoga, a verdadeira união com a nossa essência.

Referências:
Espaço Dharma de Yoga – Vga, com base no texto da prof. de Olga Rodrigues
https://samatvayoga.com.br/nyamas/